DE GERAÇÃO EM GERAÇÃO

“Se os Governos forem, um a um, valorizando, sistematizando, divulgando, fixando o seu Folk Lore, estarão criando uma Internacional de Poesia, pacífica, invencível, a mais natural, a mais democrática, a mais profunda de todas as organizações sociais, unindo, através dos idiomas e das religiões, das culturas e das civilizações, do tempo e do espaço, todos os homens, de todas as raças, numa continuidade de beleza, de lirismo, de confiança e de solidarismo humano.”
Luís da Câmara Cascudo
Hugo Macedo
Internacional da PoesiaDo Blog do Cascudo
Na sessão de encerramento da Comissão Executiva do Congresso Luso Brasileiro de Folk Lore em Lisboa, o Sr. Antônio Ferro fez um discurso sugestivo. Discurso conversando e sem pretensão de eloqüência. Não ergueu a voz. A sala era pequena e acolhedora. O Palácio da Foz, em vermelho e branco, é um dos mais lindos da Europa. Casa fidalga do século XVIII, cheia de recordações graciosas, de festas que deixaram saudades, de elegância, de bom gosto, ambiente em que a conversa era uma Arte e o espírito um estado normal da inteligência. O Sr. Antônio Ferro, fixando a importância essencial da defesa do Folk Lore, como fisionomia coletiva em sua expressão natural e poderosa de beleza, lembrou que o povo imprime aos seus objetos um pormenor de graça, de colorido e de emoção incomparável e lógico. A poesia e o canto, o desenho coreográfico e a indumentária, todo material etnográfico, constitui uma força viva, mobilizada automaticamente para a guarda da alma popular na profundeza de sua sinceridade, do seu direito de expressar-se sem obediência e submissão ao Ganon exterior, efêmero e sucessivo, da Moda...
A valorização do Folk Lore pelos Governos é um ato natural. Tão natural como a organização de suas Forças Militares. É um exército invisível e perpétuo, vivendo nas almas, de geração em geração, defendendo o País, idioma, hábito, cultura oral, costume, a técnica secular conquistadora de maravilhas. Se os Governos forem, um a um, valorizando, sistematizando, divulgando, fixando o seu Folk Lore, estarão criando uma Internacional de Poesia, pacífica, invencível, a mais natural, a mais democrática, a mais profunda de todas as organizações sociais, unindo, através dos idiomas e das religiões, das culturas e das civilizações, do tempo e do espaço, todos os homens, de todas as raças, numa continuidade de beleza, de lirismo, de confiança e de solidarismo humano. Os temas cantados em todas as línguas, em cem fórmulas musicais, dizem um mapa comum, determinando a aproximação, o entendimento, o conhecimento intelectual pela sensibilidade da tradição. Será uma Internacional de Poesia em serviço, em defesa e conservação da Paz. Folk Lore é cultura popular, independente, omnimoda, universal e nacional, coletiva, é una, milenar e presente. Valorizá-lo, como o faz o Governo de Portugal, é assumir uma atitude em serviço da Paz pela presença afetuosa da inteligência anônima dos povos.
O Sr. Antônio Ferro fez, sem intenção e sem vaidade, o seu discurso de inauguração do Congresso. E, velho enamorado da Arte Popular Portuguesa, expôs, aos seus companheiros do Folk Lore Brasileiro, o programa inicial de sua doutrina radicular e natural.
Luís da Câmara Cascudo
Diário de Natal, 27 de dezembro de 1947
http://www.memoriaviva.com.br/cascudo/index2.htm


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